Dois anos e meio depois da agressão imperialista

Líbia votada ao caos <br> e à depredação

Trípoli está a ferro-e-fogo depois de uma milícia ter morto 46 pessoas e ferido pelo menos outras 400 durante um protesto contra a presença do bando armado na capital de um país que os mercenários dominam e esquartejam.

Primeiro-ministro admite uma nova intervenção estrangeira

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O massacre ocorreu na tarde de sexta-feira, 15, quando uma manifestação pacífica convocada pelo conselho local de Trípoli, que actua como autoridade municipal, juntou milhares de pessoas em frente da sede da brigada de Misrata, no bairro de Ghargour. Os populares respondiam assim ao apelo do «presidente da câmara», Sadat al Badri, que os convocou para um protesto com o objectivo de exigir a imediata retirada daquele bando armado da cidade. Entretanto, al-Badri decretou uma greve geral de três dias em solidariedade com as vítimas, e insistiu no cumprimento de uma campanha de desobediência civil até que os grupos mercenários sejam expulsos, noticiou a AFP.

A Human Rights Watch (HRW) confirmou o assassinato de 46 pessoas e a existência de pelo menos 400 feridos e avançou detalhes sobre o sucedido. Segundo a Europa Press, a HRW baseia o seu relato em informações transmitidas por oito testemunhas, entre as quais manifestantes, jornalistas e transeuntes, os quais atestam que a brigada de Misrata abriu fogo «directa e indiscriminadamente» contra uma multidão que «não constituía qualquer ameaça».

«Os cidadãos pagaram com a vida a impunidade de milícias descontroladas», considerou Sara Whitson, directora da organização para o Médio Oriente e o Norte de África, para quem «a Líbia necessita de forças de segurança que não fiquem inactivas enquanto as milícias matam manifestantes desarmados». O primeiro-ministro líbio, Ali Zeidan, admitiu, posteriormente, que no local estavam membros da polícia e do exército que se abstiveram de intervir devido a uma suposta inferioridade face ao grupo armado.

A HRW apurou também que os mercenários de Misrata atacaram os populares com armamento pesado, facto que foi sendo divulgado por agências de informação. Nos hospitais de Trípoli que a organização diz ter visitado, fontes médicas constataram que a maioria dos cadáveres e dos sobreviventes apresentava ferimentos que indicavam o uso de munições antiaéreas e granadas de morteiro.

Entre as 46 vítimas mortais estão um médico e um enfermeiro que a HRW afirma, sustentando-se nas declarações de um outro clínico, terem falecido em resultado do ataque à ambulância onde seguiam em operação de socorro. 

Facções combatem

Horas depois do massacre, brigadas rivais provenientes de vários pontos de Trípoli desalojaram e queimaram o quartel-general da brigada de Misrata em Ghargour. Em reposta, esta ordenou a deslocação de várias colunas fiéis para Trípoli com o propósito de recuperar as posições perdidas. No sábado de manhã continuavam a chegar à capital da Líbia reforços vindos da cidade portuária, parte dos quais atacaram um quartel-general do exército e saquearam armas e munições do paiol, noticiou a agência líbia Lana. Na tarde do mesmo dia tentaram tomar de assalto áreas nevrálgicas de Trípoli, desencadeando intensos combates com mercenários afectos a grupos rivais.

De acordo com a Al Arabiya, o governo decretou no sábado o estado de emergência no país, mas a situação é volátil e a violência recrudesce, servindo de exemplo o rapto, no domingo, do director-adjunto dos serviços secretos líbios, minutos depois de ter aterrado no aeroporto de Trípoli oriundo da Turquia.

A tragédia da passada sexta-feira sucede à votação, no parlamento líbio, de um decreto que mantém o denominado Conselho dos Revolucionários como a entidade responsável pela segurança da capital. Na semana anterior, os parlamentares haviam votado no sentido exactamente contrário, argumentando, aliás, o envolvimento daquela força, dependente do Ministério do Interior, no recente rapto do primeiro-ministro. O volte-face surpreendeu muitos parlamentares, que estranharam a alteração do sentido de voto de 17 eleitos no espaço de alguns dias.

Ali Zaidan é uma figura com a autoridade minada que insistia em aplicar a decisão de submeter as brigadas a um mesmo comando até 31 de Dezembro, data a partir da qual, sublinhou, as autoridades centrais deixam de pagar os salários aos grupos armados, contratados para manter a segurança do país, que rejeitem a integração.

Já este domingo, e de acordo com a Rádio França Internacional, Zaidan terá expressado a sua impotência advertindo para a possibilidade de uma [nova] intervenção militar estrangeira para «pôr ordem no território».


Fragmentação e intervenção 

Os grupos armados que dominam Benghasi prosseguem a instalação de um governo autónomo e fundaram uma companhia petrolífera responsável pela exportação do crude extraído na Cirenaica, bem como a administração dos portos e refinarias da região. Ao secessionismo a Leste, inspirado, segundo os seus promotores, na divisão administrativa da Líbia existente no tempo da monarquia de Idris I (1951-1969), que a «revolução verde» liderada por Muammar Kadhafi veio derrubar, acrescem os bloqueios da maioria dos portos do país, impostos pelos membros da segurança em desafio ao «governo de transição», a crescente comercialização ilegal de petróleo (Ali Zaidan chegou a ameaçar bombardear os petroleiros que aportem na Líbia à revelia de Trípoli), e as quebras no fornecimento de petróleo e gás à Europa. A Líbia era até à agressão da NATO, iniciada a 19 de Março de 2011, o segundo maior produtor africano de petróleo e o quarto de gás natural do continente. Era o maior fornecedor de hidrocarbonetos ao velho continente.

Neste sentido, a preocupação de França, Grã-Bretanha, Itália e EUA é real. A ministra dos Negócios Estrangeiros italiana, Emma Bonnino, qualificou a situação de «absolutamente fora de controle», isto depois do encerramento da gasoduto que liga a Líbia à Itália. Um dia depois, a 8 de Novembro, os governos de Paris, Londres, Roma e Washington emitiram uma declaração conjunta manifestando-se igualmente preocupados, mas reiteraram a confiança no governo liderado por Ali Zaidan. A questão é que o mandato do primeiro-ministro para implementar a «transição democrática» termina em Fevereiro de 2014 e a teoria do Estado falhado começa a impor-se. Uma intervenção estrangeira a título de treino de tropas locais pelo Comando Africano – Africom não está colocada de parte. Pelo contrário, num fórum de defesa realizado domingo, 16, o almirante William McRaven, responsável pelas operações especiais do Pentágono, revelou que a questão está presa por detalhes, noticiou a Press TV.

A fragmentação do país em três regiões também não está excluída: a Cirenaica (Leste), Tripolitânia (litoral Oeste) e Fezzan (Centro-Sul), é uma «solução» que poderia servir os interesses das facções locais facilitando a sua associação ao imperialismo depredador. O presidente da italiana ENI, parceiro estratégico da Líbia na exploração de hidrocarbonetos, considerou, em meados de Outubro, em declarações à CNBC, que com cinco milhões de habitantes e um potencial de extracção de dois milhões de barris de petróleo por dia, a Líbia fará muita gente rica, podendo tornar-se um novo Abu Dhabi, um Catar ou um Kuwait. A declaração indicia que o «modelo de negócio» está estabelecido, faltando acertar o regime e os regentes.



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